terça-feira, 19 de maio de 2015

Caderno de Viagem. 1                                    .

Please take a moment to locate the nearest exit from your seat”. Já era possível enxergar Lisboa – bastava olhar pela janela; lá estavam: as nuvens, a cidade, o Tejo. E mais atento à paisagem e ao que era possível localizar sob as asas do avião que às orientações que se ouviam do sistema de som da aeronave (quem, afinal, passa algum tempo que seja localizando saídas de emergência?), quase levei um susto quando a aeromoça esticou os braços para colocar minha poltrona “in the upright position”. 

Foi um movimento rápido, que me sacudiu um pouco. Olhei para ela, assustado, e ela sustentou o sorriso. Minutos depois, aterrissamos em segurança, mas confesso que teria preferido chegar a Lisboa na posição confortável em que me mantivera até então: com a poltrona inclinada, a cabeça pendente para a janela e os olhos (des)focados nas nuvens, metafórica e literalmente.

Era a terceira vez que aterrissava no aeroporto da Portela, na capital portuguesa, saindo do Galeão, no Rio de Janeiro. Foi, contudo, a primeira vez que eu estive em casa como uma estranha espécie de turista. É claro que em casa, há já bastante tempo, é uma expressão com um sentido de certo modo particular e móvel para mim. 

Explico-me: em 2005, em um suposto ato de rebeldia, me dei conta de que já não queria morar em Teresópolis. Estava cansado da cidade, do colégio, da rotina limitadora… Sentia-me deslocado. No ano seguinte, após conversas e planos em família, fui morar em Niterói, pouco antes de terminar o ensino médio e de ingressar na Universidade. É uma cidade também pequena, eu sei, mas em quase tudo maior – sobretudo na proximidade com a capital fluminense e com a vida carioca.

Já no ensino superior, continuei a vida niteroiense, que, por um breve período, combinou-se com uma rotina diária de travessia da ponte Rio-Niterói, para uma segunda jornada acadêmica – que, para surpresa de muitos (eu incluído, vale dizer), optei por não prosseguir. Em 2010, quis tentar pôr em prática um antigo desejo-curiosidade: participar de um intercâmbio universitário. Assim, acabei por embarcar, no final do mesmo ano, rumo a Lisboa, para uma estadia de seis meses – o que me possibilitou, além do que se pode esperar de um semestre de Erasmus, reunir material suficiente para o mestrado, concluído em Niterói em 2014.

Pois bem, há cerca de uma semana, saí do Rio de Janeiro e desembarquei na capital portuguesa, pela terceira vez, no dia 12 de maio de 2015. Voltei, dessa feita, para dar prosseguimento ao doutorado, iniciado em terras lisboetas ainda em meados do ano passado, antes das férias recém-encerradas, passadas entre Teresópolis, Niterói e Rio de Janeiro.

Justamente nessa terça-feira, sentado em minha poltrona, quase à altura da aterrissagem – antes de ter sido sacudido pela aeromoça, tão enérgica quanto sorridente –, me dei conta de que já se somam quase dez anos de idas e vindas desde que resolvi sair da cidade serrana em que nasci e cresci. E como foram muitos o tempo, os deslocamentos e os aprendizados, não foram poucas as mudanças.

Se tudo começou com um suposto ato de rebeldia, o que me surpreende, de fato, é como determinados vínculos ainda se insinuam, mesmo quando todos os indícios racionais apontam que eles já deveriam ter caducado. Voltei do Brasil (de minha casa: a casa dos meus pais, em Teresópolis, e o apartamento em que moram meus irmãos, em Niterói) com a bagagem de sempre: roupas e mais uma mala repleta de livros, deslocados para minhas estantes lisboetas. Contudo, parece que, em escusas perspectivas terceiras, continuo conectado àquela Teresópolis de 2005.

Não me refiro à parte teoricamente saudável de uma identidade teresopolitana (que eu, na verdade, não saberia identificar, senão em uns poucos hábitos quotidianos particulares), e nem ao afeto acerca do lugar de minha infância. Refiro-me, sim, ao fato de estar tão longe, metafórica e literalmente, e me dar conta de que minhas decisões, meus planos e minhas formas de viver e de ver a vida continuam a ser por vezes encarados e relatados como um suposto ato de rebeldia – com distanciamento igualmente escuso e limitador.

Estando longe, para ser franco, esse é o tipo de coisa que – certamente bem, e não mal –, não tem alcance para afetar diretamente meu dia-a-dia. Mas como me importo um tanto com os meus queridos que ficam, não posso simplesmente ignorar repercussões descabidas, que se fazem saber aqui e acolá.

Cheguei a Lisboa e sinceramente espero voltar em breve; assim que eu terminar as leituras, as pesquisas, as escritas – e também as viagens, os pastéis, os vinhos… Sem pressa, portanto. Mas voltar para casa já há muito não significa voltar a ser o mesmo que em 2005 se percebeu cansado e deslocado da vida serrana. Até porque, convenha-se: esse suposto rebelde já fez as malas há quase uma década! Faz é tempo que ele (que já não é quem sou, daí a licença para a terceira pessoa) foi embora.

Fui embora, sim. Mas parti, e nunca me esqueci daquilo com que de fato me importo. Não me esqueci, sobretudo, daqueles que, concordando ou não com idas e vindas; com escolhas e abandonos de cursos universitários, de posicionamentos, de amizades, de relações e de parcerias, permaneceram por perto, da maneira que se fez possível. Daqueles que, em que pesem as dificuldades, deram, desde o primeiro momento, o suporte necessário e, mesmo quando as questões foram se tornando cada vez mais complexas e abstratas (doutoramento em história e teoria de quê?!), tornaram possível a vida à distância – com respeitoso e genuíno afeto.

Sinto uma falta grande dos meus tantos queridos, que, estando eu longe, não podem estar mais perto. Mas ao mesmo tempo, ainda quando a saudade aperta, sinto-me em casa, apesar de estar distante – é que tenho, também aqui, gente boa por perto; gente presente.

Foi mesmo bastante estranho ser uma espécie peculiar de turista em casa. Mas o estranhamento logo passou; me percebi de volta, ainda que de passagem. E, no fundo, depois de certa confusão, isso de saber que posso ir e vir; de me deslocar sem jamais me sentir tão deslocado quanto antes me fez muito, muito bem.

Na semana passada, à hora de aterrissar em Lisboa, eu de fato não dava a atenção devida aos comunicados; apenas olhava pela janela: as nuvens, a cidade, o Tejo. Não estava interessado em localizar saídas. Interessava-me, somente, o lugar para onde estava indo. E assim, com olhos postos no que da janela era possível antever, aterrissei.

Sinceramente espero que, para os meus; para aqueles que, não importam as distâncias, faço questão de ter por perto, os ponteiros logo se ajustem – repito: metafórica e literalmente (consciente da chateação da repetição), porque afinal, na primavera, Lisboa funciona quatro horas à frente, em relação a Brasília; uma complicação a mais, para comunicações e interações entre um e outro lado do Atlântico.

Na semana passada, como hoje, pouco me importa, contudo, o desconforto que não está relacionado a qualquer medida de segurança ou de afeto genuíno e recíproco. E por isso, acerca de tudo o mais (que é, enfim, supérfluo), só o que me permito fazer é, sorridente e energicamente (como a aeromoça que me sacudiu, acordando-me de minhas reflexões aéreas), indicar o posicionamento que entendo adequado. E nesse esforço para preservar aqueles de quem quero estar perto, esforço-me, ademais, para que todos nos importemos cada vez menos com o que permanece, em tudo, distante.

terça-feira, 6 de maio de 2014

pra não dizer que não falei das bananas
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Começo este post com o link para uma manchete justa, enfim. E apesar disso, meu comentário será bem mais longo que a matéria, rs... É um desabafo, afinal. http://tinyurl.com/oxxxzbd

Evitei ao máximo escrever, por um tempo, qualquer coisa sobre bananas. Não porque tenha visto na atitude de Daniel Alves algo negativo; pelo contrário: se o jogador, ao devorar a malfadada fruta, realizou um exercício que impressionou (a banana-alimento foi apropriada pelo agressor, que a ressignificou. Daniel Alves, por sua vez, diante da banana-xingamento que lhe foi lançada, fez com que o objeto, então prenhe de sentidos, remontasse ao contexto alimentar, comendo-o diante de todos), aqueles que supostamente repetiram seu gesto, na minha percepção, não fizeram mais que retomar o valor depreciativo do xingamento, que cabia apenas ao ofendido devorar.

E se parece exagerada a leitura negativa da repercussão do episódio, faz-se eloquente o fato de que não foi o jogador e o grupo que ele representa o que esteve nas hashtags, mas os xingamentos metafóricos aludidos que se repetiram em postagens e camisetas. Não se disse, afinal, “somos todos Daniel Alves”, ou “somos todos negros”, mas, reproduzindo o gesto agressivo (que, na maior parte das vezes, jamais os afetou), as celebridades e os demais bacaninhas se exibiram com bananas, dizendo-se macacos – e de certo modo fazendo uma vez mais vir à tona o potencial agressivo da metáfora já devorada pelo jogador.

Alguns colegas, diferentemente de mim, enxergaram o momento, com a discussão sobre o racismo vindo a lume, como positivo. Afinal, em um país em que o lamentável livro de Ali Kamel serve de argumento para a afirmação descabida de que “não somos racistas”, estava-se, enfim, tratando de questões que, via de regra, a cordialidade faz evitar – sob o discurso da miscigenação, da harmonização histórica das "três raças", da democracia racial etc. Mas não é preciso prestar muita atenção aos detalhes para se dar conta do óbvio: não se está discutindo o racismo no país, mas a manifestação racista sofrida por um brasileiro de destaque na Espanha!

Nesse aspecto, a comoção gerada pelo episódio parece escárnio, diante das agressões quotidianas havidas deste lado do Atlântico, em que negros não são apenas simbolicamente ofendidos, mas passam por todo o tipo de violência sem que se dê a devida atenção; sem hashtags, fotos, campanhas publicitárias e celebridades se manifestando a seu favor. Assim, enquanto a revista veja, não curiosamente, diz que Daniel Alves pôs um ponto final no racismo no cenário mundial [http://tinyurl.com/l5v9ja3], o Brasil racista prossegue com suas agressões incontestes.

Não surpreende, portanto, que na mesma semana que se condenava o torcedor espanhol anônimo por sua banana [aliás, o espanhol já não é mais tão anônimo e a acentuação das críticas a ele direcionadas fez surgir uma série de defensores http://tinyurl.com/nwc7l9q], o brasileiro famosinho e supostamente descolado Danilo Gentili tenha sido absolvido da acusação de racismo por um episódio semelhante, em que ofereceu bananas para – diante de uma crítica mal recebida – fazer calar um internauta incômodo. Assim, se o episódio espanhol foi reprovado inquestionavelmente, por aqui, o antecedente nacional foi considerado, pelo juiz, inclusive, uma simples piada infeliz [http://tinyurl.com/mz26qz6].

Mas, como disse, eu queria evitar falar em bananas. E se o assunto vem, aqui, à tona, é por conta de uma matéria que li hoje e que me fez recordar um episódio passado há mais de dois anos. Em setembro de 2011, eu estava em Cuiabá-MT, visitando a parte matogrossense de minha família. Na noite do dia 22, enquanto voltava com meu irmão e meus primos para a casa de minha tia, percebemos um grande tumulto na rua, com viaturas policiais interrompendo o trânsito. Fomos informados de que havia ocorrido um assassinato numa pizzaria ali perto. Resolvemos, então, dormir na casa de um amigo. Por isso, só soubemos de tudo o que havia ocorrido no dia seguinte.

O que se passou? Um rapaz negro de Guiné-Bissau, que chegou a Cuiabá como intercambista na UFMT, foi espancado e morto. Entre os agressores, estavam dois policiais, que afirmavam que ele, Toni Bernardo da Silva, estava drogado e alterado, atrapalhando e incomodando o jantar das respectivas famílias, pedindo dinheiro e não se afastando de suas esposas. Por isso, foi torturado e morto – era, afinal, um bandido.

Não bastassem todos os tópicos em questão, no episódio – uma vez mais um homem negro e marginalizado sendo torturado e morto nas mãos de policiais –, fiquei mais envolvido com o desenrolar dos fatos porque minha tia, que morava ao lado da pizzaria em que tudo se passou, ao perceber o tumulto que se instalava, com gritaria e pessoas se ajuntando, foi informada de que era uma briga e decidiu intervir. Chegando ao local, encontrou o rapaz já desacordado, mas ainda sofrendo as agressões dos referidos indivíduos.

De acordo com ela, diante de seus gritos para que parassem de bater em Toni, os dois se identificaram como policiais, indo em sua direção e pedindo que se calasse. Enquanto isso, as esposas e outras pessoas incentivavam as ações dos agressores – apenas duas cozinheiras da pizzaria, além de minha tia, tentavam interromper o que se passava. A maior parte dos expectadores de fato só assistia. A polícia – não policiais à paisana, mas a força policial em serviço – foi convocada. Quando chegou a viatura, Toni já estava morto. Foi decretada a prisão dos agressores. E, com isso, iniciou-se uma série de episódios chocantes, com minha tia, que se apresentou como testemunha para o caso, passando por intimidações que acabaram por justificar que andasse acompanhada por escolta, durante alguns meses.

Isso foi, como disse, em 2011. Depois da repercussão do episódio, diversos meios – nacionais e internacionais, sobretudo relacionados à luta por direitos humanos –, criticaram o estado do Mato Grosso, demandando um julgamento devido e acusando uma série de questões graves envolvidas, em que se destacam o preconceito (sobretudo em relação a um negro estrangeiro marginalizado), a violência policial e a rede de influências que poderiam afetar a ação da justiça [http://tinyurl.com/pywp87w; http://tinyurl.com/pmte7dk].

Hoje, mais de dois anos depois, recebi de minha prima a indicação de uma matéria intitulada “Juíza culpa vítima e inocenta PMs acusados de matar africano”, em que se lê: “na sentença, a juíza Marcemila Mello Reis, da 3ª Vara Criminal de Cuiabá, assegura que, no episódio, Toni estava extremamente alterado e seu comportamento causou a trágédia. ‘A vítima foi o agente provocador dos fatos, e seu comportamento foi decisivo para o desenrolar dos acontecimentos’” [http://tinyurl.com/oxxxzbd]. Mesmo com meu realismo pessimista em relação à profundidade dos referidos problemas no país, fiquei bastante impressionado com a leviandade, ou melhor, com a nocividade da juíza [ir]responsável.

À época em que acompanhei mais de perto o que saía na mídia sobre o caso, também muito me impressionaram os comentários acerca do testemunho de minha tia. Afinal, acusaram-na de estar inventando tudo, para aparecer; disseram que era exagero; que ela deveria escolher melhor as causas por que lutar. Enfim, muitos – a maioria, talvez –, além de não entender o que levaria alguém a se arriscar por um indivíduo desconhecido, apoiavam a ação dos policiais. Policiais que, a despeito do papel que lhes cabia, apresentaram-se como justiceiros; mataram, conscientemente, alguém que julgavam merecer morrer, por ser bandido.

E essa questão da possibilidade de fazer justiça com as próprias mãos, tópico também candente hoje, assume, nesse caso, uma dimensão de maior gravidade. Uma dimensão oficial, não apenas por serem agentes do Estado os autores das agressões, mas por sua ação, no fim das contas, ter sido legitimada pelo poder judiciário, que, na sentença emitida, culpabiliziou, pela morte grotesca, a própria vítima – não por acaso, um homem negro e marginalizado.

O que se passou em Cuiabá em 2011 assemelha-se a uma série de agressões constantes no Brasil; é desses episódios que fazem pensar, e muito, nas tensões que tanto ecoam ainda hoje, a despeito do discurso que ao mesmo tempo nega o racismo e apresenta a banana como uma solução plausível para sua manifestação [em outros países]. Dizer que tudo está resolvido é insistir na negação dos problemas que deveriam estar em pauta – estratégia elitista e preguiçosa, que acarreta consequências graves. Fossem, por milagre, as bananas o caminho, ainda seria necessário descascar muitos cachos.

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Para quem quiser saber um pouco mais sobre as questões referidas, segue um link que direciona a um vídeo com o depoimento de minha tia, Janaína Monteiro, em coletiva à imprensa, na Câmara dos Deputados: http://preview.tinyurl.com/plgxc7h.

E aqui, um exemplo de comentário crítico ao depoimento, que indicia como as pessoas, ao negar o racismo, não fazem mais que, involuntariamente, acusá-lo: 
Nada tem a ver com a cor, tem muita gente pegando carona na situação só porque o rapaz era negro, isto é demagogia e autopromoção, neste país qualquer pobre é um excluído, pois além de não ter oportunidade de crescimento, o mesmo é barrado por sua aparência e sua indumentária, que não é o caso de Toni, que apesar de negro era bonito, altivo, bem posto e bem vestido de forma esportiva e casual como mostra o vídeo. Dona Janaina chegou ao local como a mesma confirma, no fim. Não pode afirmar que ninguém fez nada, entrar em luta corporal com os rapazes realmente ninguém fez, nem ela, nem seu filho, nem seu marido que é da Polícia Civil fez. A violência não é só dos Policiais, a violência em Cuiabá está generalizada, é nas escolas, nas ruas, no trânsito no shopping. As pessoas estão presas dentro de casa e os bandidos nas ruas. As drogas são uma violência cometida com a permissão da sociedade que não tem agido com a devida energia, e destroem o maior tesouro de um país: seus jovens. Vamos por a mão na consciência, violência mesmo é corrupção geral que assola nosso país, a violência contra os direitos dos cidadãos permeiam as assembléias, câmaras municipais, e câmaras de deputados, onde grande número de políticos violentam o povo deste país com a mais nefasta das violências, a corrupção. Nosso povo não tem saúde, escola e segurança. Não temos estradas, redes de esgoto e água tratada, faltam escolas de qualidade para nossos filhos e nosso povo morre a míngua a espera de cirurgias nos hospitais da rede pública. Isto sim é violência Dona Janaína.
Zé Antônio, em 03/10/2011, às 15h53’[http://tinyurl.com/pmte7dk].

terça-feira, 26 de novembro de 2013

proletários de clio                                    .

Coroa de louros na cabeça, pergaminho, pena e trombeta nas mãos: Clio, a plocamadora, é a musa da história; uma das nove filhas de Zeus e Menemósine [deusa da memória], inspiradoras das manifestações artísticas e científicas no mundo helénico. Celebrar grandes feitos, proclamar narrativas eloquentes e difundir exemplos de que se pudessem valer os homens eram prerrogativas da arte sob os domínios de Clio. Foi-se o tempo da historia magistra vitae, e embora na disciplina da história hoje vigorem, ao menos teoricamente, paradigmas em muito diferentes, mantém-se a égide da musa grega – um dos tantos ainda-ecoares mitológicos de um ocidente cioso de suas supostas raízes clássicas. 

Nada de exemplos ou heróis, portanto. “Mas então pra que serve a história?”. Marc Bloch, historiador francês que, ao lado de Lucien Febvre, foi figura chave de um dos movimentos que mais influenciaram a historiografia brasileira, apresentou sua Apologia da História como o desenvolvimento reflexivo originado no momento em que seu filho lhe fez tal pergunta, colocando-o na situação de “um historiador chamado a prestar contas” sobre seu ofício. Encerradas as primeiras etapas de um longo caminho acadêmico nos domínios de Clio, sinto-me tácita, e mesmo explicitamente convocado a (com diploma na mão) fazer semelhante prestação de contas. Sou historiador – mas pra quê? 

Poderia, como Bloch, começar por responder que “é divertido”. Mas – sem negar o que há de entretenimento ou de chateação no ofício –, é outro aspecto que me leva a aqui me manifestar acerca do que sob o título de história produzimos. Mais que os porquês/praquês”, interessa-me explicar os comos. Afinal, concordo haver algo de excêntrico nisso de escrever sobre lugares que nunca visitei, pessoas que jamais conheci e tempos que não vivi. E fazê-lo a partir de vestígios esparsos, em um exercício em que se misturam (e por vezes se confundem) a tentativa [inatingível] de reconstrução do que já passou e os lampejos [por vezes incontroláveis] da inventividade de quem se lança a investigar o desconhecido. 

Gosto bastante da apropriação que Carlo Ginzburg faz do mito de Teseu (mais um pouco de mitologia grega: Teseu recebeu, de Ariadne, um fio com o qual se orientou para entrar, matar o Minotauro e sair de seu labirinto), atualizando-o metaforicamente para explicar o que seria o trabalho de um historiador. Trançando-se uma relação entre “o fio do relato, que ajuda a nos orientarmos no labirinto da realidade” e os rastros – as marcas que, em se tratando do mito, ainda que não mencionadas, Teseu teria deixado, em seu vagar pelo labirinto –, entende-se que caberia ao historiador contar, servindo-se dos rastros, “histórias verdadeiras (que, às vezes, têm como objeto o falso)”. 

A narrativa historicamente orientada, assim, seria tecida a partir dos fios legados pelo passado. Entendem-se, pois, as fontes – os rastros a partir dos quais os historiadores se lançam a investigar o que passou – como simultaneamente estímulo (são o que o permite que os historiadores, depois de suas investigações quase detetivescas, se lancem à escrita) e limite da produção historiográfica (condicionam o que pode ser escrito, uma vez que a história se constrói a partir das fontes; aquilo que pode, de certo modo, validar um relato). Reagindo às críticas que insistiam em mostrar apenas o caráter subjetivo das narrativas históricas, Guinzburg remete-se justamente à Apologia de Bloch, em que ele afirma que “até mesmo nos testemunhos mais resolutamente voluntários [...] aquilo que o texto nos diz já não constitui o objeto preferido de nossa atenção”. Mesmo subordinados ao passado, portanto, os historiadores teriam se emancipado, “ao menos no sentido de que, embora permanecendo condenados a conhecê-lo exclusivamente com base em seus rastros, conseguimos, todavia, saber bem mais a seu respeito do que ele resolvera nos dar a conhecer”. 

Outro historiador que reflete sobre a produção historiográfica, Michel de Certeau entende a prática historiadora como uma prática de escrita. Para ele, “a historiografia (quer dizer ‘história’ e ‘escrita’) traz inscrita no próprio nome o paradoxo – e quase o oxímoron – do relacionamento de dois termos antinômicos: o real e o discurso. Ela tem a tarefa de articulá-los e, onde esse laço não é pensável, fazer como se os articulasse”. Assim, pode-se entender que a história está ligada a uma escrita performativa no ato de fazer história e ao mesmo tempo a uma escrita em espelho no ato de contar histórias. Trata-se, enfim, de uma prática controlada de produção de um discurso – em que o real é, ao mesmo tempo, o resultado que se espera da análise e o seu postulado. Nesse sentido, os historiadores, em seus próprios textos, voltam-se o tempo todo para as diferentes formas de texto do passado – para a partir delas produzir um outro texto, de caráter diferente; interpretativo. E, ao buscarem o contato com as fontes/rastros, ao mesmo tempo se distanciam delas, tentando explicitar sua lógica estrutural interna e recuperar seu sentido, em uma hermenêutica do outro

Assim, valendo-se de vestígios diversos; articulando afirmações, negações, verdades, mentiras, silêncios e ausências, os historiadores lidam com evidências (que inspiram certeza), mas também com verossimilhanças e conjecturas bem documentadas; com o acontecimento e com a plausibilidade. Apenas desse modo, escutando (e questionando) fontes ruidosas, e também fazendo falarem fontes silenciosas; não podendo abrir mão do fio de Ariadne, nem fiar-se completamente nele ao se enveredarem pelos detetivescos labirintos da pesquisa e da narrativa, é que os historiadores ousam se pronunciar sobre o desconhecido, fazendo-se como que conhecedores de lugares que nunca viram, pessoas que jamais conheceram e tempos que não viveram. Reconstrução intangível e imaginação controlada pelas regras disciplinares dos domínios de Clio.

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Proletários de Clio é o nome da turma de formandos da Graduação (Bacharelado e Licenciatura) em História da Universidade Federal Fluminense 2011/02: historiadores. Este post se deve simplesmente ao fato de eu ter, por acaso, esbarrado com este texto antigo entre os arquivos de minha pesquisa. Não sei se hoje escreveria algo assim, mas acho, de todos os modos, válido fazer o registro.


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Referências:
BLOCH, M. Apologia da História ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
CERTEAU, M. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense, 2001.
DOSSE, F. A História. São Paulo: Unesp, 2012.
GINZBURG, C. O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

festival do rio                                             .

Ontem fui à Cinelândia, e não entrei no Odeon. Não é preciso ser muito criativo para imaginar qual vai ser a narrativa oficial sobre o início dos confrontos que presenciei do lado de fora do cinema. Afinal, será previsivelmente mais do mesmo: a polícia simplesmente reagindo, "sem truculência", à ação de uma "minoria de vândalos". O que assisti, contudo, passou longe do roteiro pré-fabricado que o prefeito e o governador concedem há alguns meses para a Rede Globo.

Após ações questionáveis da Polícia Militar ao longo da tarde, visando a dispersar e a desestabilizar a multidão (exibindo-se em peso em todas as pontas da praça; avançando em incursões no meio das pessoas sem motivo aparente; prendendo alguns...), um grupo anunciou tranquilamente que pretendia se dirigir à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Havia black blocs entre eles – afinal, a convocação de partir em apoio aos manifestantes que se encontravam na ALERJ veio do grupo, que se manteve todo o tempo ao lado dos professores que se encontravam em frente à Câmara de vereadores. Pois bem, esse grupo, que caminhava pacificamente, foi cercado por policiais, assim que deixou a praça. Houve confronto – em algum momento, quando estavam todos impedidos de passar, devido a um cordão de policiais, uma pedra foi lançada contra uma vidraça (a suspeita é de que se tratou da ação de um infiltrado – e os relatos nesse sentido não são poucos). Apesar de tudo, não houve caos nesse momento. No entanto, depois de carros da polícia avançarem em disparada pela av. Rio Branco e se iniciarem a correria e as bombas, o grupo foi perseguido de volta para a Cinelândia.

Enquanto muitos se dirigiram para a extremidade da praça, a tropa de choque da PM [com fardas-armadura que remetem ao Robocop], que surgiu minutos antes, cercou a Cinelândia. Então, um grupo de policiais avançou em direção aos professores que se encontravam desde cedo em frente e ao lado da Câmara, em seu acampamento. Era uma grande coluna de homens bem alinhados (um ao lado do outro), em formação de combate, correndo de armas em punho – como se de um cenário de guerra cinematográfica se tratasse. O alvo era claro – apesar do que venha a ser dito –, e os professores não tinham muito bem para onde fugir; estavam encurralados. Alguns subiram as escadas, outros resistiram – mesas do bar Amarelinho foram usadas como proteção; faixas e barracas foram destruídas. Ouviam-se tiros e bombas.

A suspeita de alguns dos que presenciaram as cenas pouco verossímeis era de que o cerco estava armado desde cedo, apenas aguardando um "motivo" para proceder contra o acampamento e os manifestantes grevistas – e por isso passou-se de uma perseguição aos black blocs (alvo fácil do discurso maniqueísta e hipócrita de uma "minoria de vândalos" que legitimaria a repressão estatal) a um confronto aberto e nada dissimulado com professores, muitos dos quais sequer deixaram os arredores da  Câmara durante todo o dia. O que houve, contudo, foi um grupo tentando ajudar o outro: professores e black blocs se uniram para se defender da polícia, que insistia em avançar frente a um inimigo inventado; não havia qualquer indício de desordem que justificasse uma ação da tropa de choque, muito menos na dimensão monumental orquestrada. Depois de tamanho desatino, achei melhor me retirar antes que as coisas se complicassem mais – os carros da tropa não paravam de chegar e, para qualquer direção que olhasse, havia policiais marchando até a praça. Era mais um cenário de guerra no centro do rio, e era tudo de verdade.

Minutos antes, ainda na escadaria do Theatro Municipal, um grupo de policiais assistia ao "espetáculo" de seus colegas e comentava, enquanto comia pipocas:
– aí, começou! e agora? vai ter que sair atirando pela cidade inteira?
– mas acho que não foi a gente, não. foi? não; acho que foram eles... é; eles é que começaram a atirar!

Indiferentes, e completamente desnorteados. Sem saber o que fazer, e sequer o que estava se passando; em tudo equivocados. Como se diante da exibição de um filme estivessem – expectadores passivos. Mas eram atores, e portavam armas de verdade.

Há pouco mais de um mês, em entrevista paradigmática divulgada em um domingo, O Globo perguntava e o sr. prefeito respondia:
– E o Woody Allen? Filma na cidade?
– Eu quero muito que ele venha! Já fiz de tudo. Falei com a irmã dele, mandei bilhete via (o arquiteto Santiago) Calatrava, que é vizinho dele em Nova York, e pago o que for para que ele venha filmar aqui. O Reage Artista vai me matar quando eu der os milhões que o Woody pedir. Mas eu pago 100% da produção. [link]

É inegável o descompasso; o Rio que se encontra do lado de fora das salas de cinema não faz parte do roteiro do prefeito-maravilha, mas é ele quem, sob os auspícios de seu amigo governador, dirige os atores fardados, em montagens de guerra urbana. Disparate.

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Todo o apoio à greve dos professores.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

estado, violência, vandalismo                                                          
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uma semana após o fatídico dia 20/06 (e alguns dias depois do absurdo literalmente sangrento na maré no dia 25/06), assistiu-se a uma exibição questionável e tosca da polícia militar, que recorreu à exposição de mulheres bonitas fardadas, sorridentes e simpáticas (não se tentou sequer disfarçar a intenção e o machismo implícito) em pontos estratégicos da manifestação, entre a candelária e a cinelândia, distribuindo folhetos em que se liam, em letras garrafais, apelos à paz, negando tudo aquilo que se havia vivenciado nos últimos dias - "a polícia militar não reprime manifestações nem é contra a liberdade de expressão, mas tem como valor maior a proteção à vida [...] ajude a pm nessa missão" [para acessar, clique aqui] -, culpabilizando, uma vez mais, os próprios manifestantes. nesse dia "sem incidentes", a pm de fato agiu um pouco diferente, valendo-se "apenas" de um efetivo numericamente absurdo, reprimindo "apenas" simbolicamente. mas como ficar tranquilo estando cercado por todos os lados por policiais de que, havia poucos dias, precisou-se fugir? definitivamente não se tratou de uma "manifestação pacífica". no entanto, foi, de qualquer forma, uma mudança no modo de reprimir.

já no domingo dia 30/06, no encerramento da copa das confederações, entretanto, ficou óbvio (e alguém, à altura, disso suspeitava?) que de fato nada havia mudado - tratara-se apenas de uma exibição pontual e vazia; propaganda institucional barata, confirmada em um vídeo da pmerj que chega a ser ofensivo, apresentando-se como "aperitivo" das políticas de segurança da instituição [para acessar, clique aqui]. a despeito daqueles que viram os aparelhos da polícia como ponto turístico e elemento simbólico de paz [para acessar, clique aqui e aqui], ficou evidente que não se tratava (o que já seria, de todo modo, problemático) de mero simbolismo de violência (violência, sim! afinal, não há como traduzir, senão por total alienação, a eloquência de um caveirão em termos de paz e tranquilidade); a exibição da repressão foi, uma vez mais, esdrúxula, desmedida e nada abstrata.

depois veio o domingo da fumaça no leblon, que para alguns foi um "agora sim se passou do limite; no leblon não pode!" [para acessar, clique aqui]. e, como se não bastasse, vieram as cenas e as declarações de ontem: de um lado, as notas oficiais do governador e de sua polícia [para acessar, clique aqui e aqui]; de outro, as imagens e os relatos compartilhados pela internet. como disse uma amiga, "não deveria existir outra quinta-feira sangrenta como o 20 de junho no rio, o dia que tirou qualquer dúvida de que vivemos em regime de exceção. mas estamos vivendo mais uma quinta-feira de truculência e terrorismo hoje. a repressão é sistemática e naturalizada, não tem mais nenhum pudor em atirar e explodir os movimentos populares".

e se as atitudes de truculência continuaram, também não mudou o discurso com que se tenta, de cara lavada, legitimar a ação descabida - "vandalismo", "segurança", "policiais atacados" seguem como palavras-chave dessa tentativa preguiçosa e pouco dissimulada de argumentar. não se tem sequer o pudor de mudar o tom ou de disfarçar os abusos; atacam-se, do mesmo modo e diante de câmeras, manifestantes, repórteres, transeuntes, representantes da comissão de direitos humanos da oab e da anistia internacional... praças, ruas, bares, casas, hospitais... é tudo muito explícito e inconsequente, com pessoas feridas e presas sem qualquer justificativa (ou com "provas" nitidamente forjadas). se por um lado não deixa de ser significativo notar que a polícia deixou de reprimir apenas as pessoas mais pobres nos locais mais periféricos - o que permite que mais gente, em mais lugares, conheça a realidade e a prática histórica dessa instituição há tempos questionada e se engaje nas demandas por mudanças -, é assustadora essa total falta de controle; essa certeza de impunidade que permite abusos incríveis à luz dos flashes.

já presentes nos momentos iniciais das manifestações, os gritos de "cabral é ditador" e "não adianta reprimir, esse governo vai cair" assumem, a cada dia, maior eloquência. na profusão de sentidos literais e simbólicos em jogo, o governador, em um de seus muitos helicópteros, abandona, fugitivo, seu palácio - distanciando-se cada vez mais das ruas. quanto mais alto ele voa, mais espetaculosamente se deseja assistir a sua queda. enquanto prossegue, aéreo, o governo, continuam, de baixo, os gritos: "cabral, eu não me engano, seu coração é miliciano". gritamos, todos, contra o vandalismo como acusação e como política de estado. "cabral, pode esperar, a sua hora vai chegar". nem que seja por um tombo, será impossível escapar das ruas.


quinta-feira, 20 de junho de 2013

bandeira                                                           .

confesso achar estranho um pessoal ter assistido ao “v de vingança” e ao resgate, por jovens em manifestações recentes ao redor do mundo, da máscara que representa guy fawkes e se identificar a ponto de se apropriar de uma série de elementos simbólicos, mas, ao mesmo tempo, afirmar-se apolítico e radicalmente contra vandalismo e violência – as propostas supostamente revolucionárias por trás das ações evocadas pelo elemento “vingança” devem ser esquecidas? me parece uma série de discursos embaralhados, quase em curto-circuito. tudo bem que toda apropriação é um exercício ativo que envolve seleção e atualização, mas não há, em tal simbolismo, tanta neutralidade – e, portanto, é muito difícil querer esvaziar uma máscara de toda sua carga evidente, e, ao mesmo tempo, manter sua eloquência.

além disso, acho mesmo muito estranho tanta gente se recusar a aceitar que, a despeito de sua desconfiança, haja quem seja representado por pessoas (que mostram sua cara) empenhando bandeiras e apresentando propostas políticas concretas; que se recuse a aceitar isso, mas se diga representada, sim, por (pessoas com propostas políticas e ideológicas bem demarcadas, apresentando-se atrás de) uma máscara; que, a despeito de seu descrédito em relação a meios tradicionais de deliberação, não reconheça a pauta tirada em uma plenária pública e popular, mas reconheça causas pontuadas sabe-se lá por quem.

quer esconder o rosto e se dizer guy fawkes? não acho a opção mais coerente, mas tudo bem – afinal, não cabe a mim determinar isso; só não diga ser essa a única forma legítima e aceitável de ir às ruas. não deslegitime os que já estão lá há muito tempo, mostrando a cara e se expondo à violência que só se fez evidente agora, impedindo-os de ter suas bandeiras e formas de representação reconhecidas. também não tente simplesmente substituir demandas e reformar o movimento, à maneira do jabor – a ideia é somar, e não diminuir/excluir.

acha que ser contra pec 37 e a corrupção é uma bandeira mais concreta? ok, mas não insista nesse discurso de que não se deve falar do transporte (uma questão que, todos sabemos, não foi resolvida pelo esdrúxulo “recuo” a que se assistiu ontem); que essa não é uma causa abrangente... afinal, convenhamos: foi abrangente o suficiente para gerar uma reação que foi tão forte que “despertou” quem diz ter estado dormindo.

enfim, ter tido que gritar “sem violência” para manifestantes que vestiam branco, portavam cartazes que exibiam, em letras garrafais, “afasta de mim esse ‘cale-se’”, mas queriam partir pra cima de outros manifestantes, arrancar bandeiras e impedir participação em uma passeata que devia, sim, ser plural me pareceu um esforço por fazer ver um contrassenso evidente. por isso esse receio de que o suposto anonimato, em vez de “horizontalizar” o movimento, como afirma fazer, afaste muitos da constatação de necessidades concretas e abrangentes. quem, desde o início, reprimiu e impediu as manifestações, sabemos muito bem, foi a polícia (que responde hierarquicamente a interesses políticos explicitados). não é necessário que se reforce esse mecanismo. ademais, não é preciso se esconder atrás de coisa alguma - nem mesmo de demandas. vale mais se fazer visível e identificável, mobilizando ainda mais gente; fazendo os mais de “100 mil” anunciados, mais que uma abstração numérica, um indicador bastante concreto.

por isso, vamos, sim, pra rua – de verde e amarelo, branco ou vermelho; com bandeiras ou máscaras. vamos pra rua, e nos coloquemos, cada um de seu modo, ao lado de quem lá já estava.

terça-feira, 18 de junho de 2013

vem pra rua, vem                                                .

Cem mil pessoas, de acordo com as estimativas mais divulgadas, ocuparam toda a extensão da avenida Rio Branco – da Candelária à Cinelândia. Cem mil pessoas cantaram, pularam e gritaram, animadas, palavras de ordem e jingles inventados: “olê, olê... olê, olá... se a tarifa não abaixar, o Rio, o Rio, o Rio vai parar!” Foi, de fato, lindo fazer parte de uma manifestação como aquela – especialmente pela surpresa de estar ao lado de uma multidão também composta por meus irmãos e amigos. Mas, para mim, é impossível pensar o dia de ontem e não me lembrar da violência. E não me refiro às cenas do Palácio Tiradentes, que tiveram lugar apenas ao final do dia, e sim à violência simbólica das garrafas de vinagre, das máscaras e dos panos que quase todos levávamos nas mochilas.

Quem viu as fotos e os vídeos de pessoas sorrindo, à vontade, num ato que foi majoritariamente pacífico, não se pode deixar enganar: o clima era, sim, de medo. Um medo que se manifestou desde muito antes das 17h. Não foram poucas as mensagens que recebemos de amigos dizendo querer participar, mas não se sentir seguros para ir às ruas – “vocês vão mesmo? queria tanto... mas não tenho coragem!”; as orientações precisas sobre como nos portar diante dos cenários mais catastróficos – que sabíamos possíveis –, repassadas em listas diversas nas redes sociais; as advertências sinceras, somadas às mais variadas ofertas de auxílio (médico, legal, logístico), caso as coisas se complicassem...

A despeito da cobertura oblíqua e dissimulada dada aos protestos ao longo dos últimos dias, chegaram-nos, a contrapelo, informações de fato alarmantes sobre a ação da polícia em manifestações anteriores, e também nas horas que antecederam a marcha que partiu da Candelária – detenções arbitrárias, por toda a cidade, armamentos exibidos, abordagens violentas para revistas (sempre trazendo à tona o tópico da “manifestação” como indicador de suspeitas que legitimariam ações pouco confiáveis), discursos de maior endurecimento da força policial. Houve, não há como negar, uma tentativa (política) de, pelo medo, desarticular o anunciado movimento. E apesar disso, éramos, na Rio Branco, cem mil. Por isso, ouvir pessoas supostamente “antenadas” dizerem não estar comovidas com manifestações; que passeatas são bonitas, mas que “vamos ver nas urnas”; que, dados os episódios de violência repetidos em looping pela TV (interrompendo – como pode? – a novela), “o povo merece os políticos que tem”, me deixa, sim, indignado.

Cem mil pessoas – só na cidade do Rio de Janeiro – enfrentavam medos palpáveis e desconfortos evidentes (contrariando frontalmente os declarados “comodismo”, “apatia” e “indiferença” do perverso estereótipo de um povo). Mas, de seus sofás, sentindo-se ainda expectadores – a despeito de conhecerem muitos dos que lá estavam –, cidadãos de bem se achavam no direito de exigir “ser convencidos” sobre a “legitimidade”, a “real intenção”, a “eficácia” e a “sustentabilidade” do que já não se podia fingir não ver. Ou então repetiam o discurso de determinados políticos, editoras e emissoras, que, diante do fracasso em simplesmente condenar um movimento de tal dimensão (erro de análise, sim, mas não só isso, obviamente), querem exercer sobre ele algum controle, manipulando pautas e modus operanti, numa tentativa tosca de transformar o que é uma manifestação de cunho marcadamente social (as bandeiras são claras; “são, sim, os vinte centavos, mas também são direitos” – contra o aumento da passagem, contra os abusos de gastos e ações para os megaeventos, contra a truculência policial...) em um replay daquelas etéreas e estéreis manifestações contra corrupção (essas sim sem pauta alguma, que faziam do mero apolitismo e do antipartidarismo – bem diferente do apartidarismo – sua bandeira).

Não foi para isso que a rua foi tomada. Não está em questão a comoção de “expectadores” que se recusam a enxergar, e sim a busca por fazer verem os governantes a insatisfação; convencê-los de que uma mudança é necessária; que, se continuar desse jeito, o Rio pode continuar parado – não pelo engarrafamento das obras, e sim pela imposição dos talvez mais de cem mil que podem chegar, na próxima manifestação.

Quem assiste a tudo isso, e se sensibiliza apenas com pichações e lixeiras queimadas, se identificando mais facilmente com o “patrimônio público” (na maior parte das vezes, na verdade, privado) que com as causas em pauta – exigindo, como se estivesse em posição de o fazer, “protestos” pacíficos (sem baderna ou engarrafamentos, que supostamente não fazem parte do cotidiano na metrópole carioca) – não entende que a força e o apelo da mobilização estão também em seu potencial descontrole; que, se há quem se dispõe a levar bala (e não mais de borracha) por uma causa, há que se pensar naquilo que leva a um tal extremo. Isso sem falar nas manipulações pouco dissimuladas, ou sem contar com o fato de que, ademais, não se pode esquecer que a ação policial que tem se feito evidente nos últimos dias não é pontual; faz parte da repressão cotidiana a movimentos sociais que nunca estiveram “na inércia” (quem saiu desse estado fomos os que não estávamos, antes, na rua) e minorias, sobretudo em favelas e subúrbios, estando, muitas vezes, na origem dessa insatisfação que resulta em violências aparentemente descabidas.

Faço parte dos que veem com bons olhos toda essa manifestação – e até a reação dos que, diante da dimensão que a coisa toda tomou, não têm conseguido segurar suas máscaras (o Jabor é só o exemplo mais evidente e suas retratação e suposta mudança de posicionamento só são aceitáveis para quem insiste em concordar com seus disparates preconceituosos e interessados). Por isso a indignação com quem insiste em dissimular o que de fato pensa, demandando um movimento utópico com o qual poderia concordar. E assim, o Rio segue - diante da não negociação, o movimento permanece propondo novos atos. Em cima do muro não dá pra ficar; resta a alternativa de “ir pra rua”, ou desistir de um “controle” sobre ela.

sábado, 15 de junho de 2013

manifestação                                                                          .

ontem, pouco antes da 1h, enquanto eu voltava para casa depois de deixar um amigo no ponto de ônibus - já na rua de minha casa -, um carro da polícia parou brusca e aleatoriamente na minha frente. rapidamente saíram dois policiais, indicando estar armados. sem dar explicações quaisquer, me empurraram pra parede. me revistaram todo, repetidamente: um, depois o outro. vasculharam até os pequenos compartimentos da minha carteira e reviraram todos os meus papéis (aquelas tripinhas inúteis do cartão de crédito). enquanto isso, faziam insistentemente uma série de perguntas, uma atrás da outra, sem que eu tivesse muito tempo para responder - e repetindo com ar de desconfiança minhas respostas; não tinha lógica alguma. depois de indagarem sobre quem eu era, o que fazia, da onde vinha, pra onde ia, onde morava e tudo mais, insistiram em saber sobre drogas – “você está com drogas? esteve com drogas? usou drogas hoje? você já usou drogas? você está sendo honesto?”. e então, em uma mudança de abordagem, começaram a indagar sobre uma eventual participação na manifestação contra o aumento do preço das passagens (o acúmulo de funções dos motoristas e uma série de outras questões de que estamos todos a par, nesta altura), que tinha se encerrado muitas horas antes - "não participou não, né? tem certeza? e você é estudante de  história da uff? ah, tá; sei...". após a insistência nesse ponto, um deles começou a falar mal da manifestação (e ele dizia “a manifestação”, como se a palavra, ela mesma, já indicasse algo bastante negativo). não sei o que esperava; queria que eu me “manifestasse” a respeito? mas eu estava imprensado na parede, sendo observado por dois policiais nada simpáticos... ou queria me constranger ainda mais, pelo silêncio a que me via limitado? depois de um tempo, me mandaram embora: "tá vendo? era só o que queríamos saber. pode ir... tranquilo; não precisava ficar nervoso assim!". é claro que eu estava nervoso; bastante nervoso - e ainda me senta muito estúpido... sem ter o que fazer. eles obviamente perceberam (por isso o comentário jocoso). no final, não aconteceu nada de mais grave, mas não foi um episódio pontual e as coisas nem sempre terminam pacificamente; sabe-se de outras tantas pessoas que, abordadas em lugares e horários aleatórios, e também sem justificativa aparente, além do constrangimento - às vezes realmente grave -, levaram bofetadas desmerecidas (pra dizer o mínimo), sobretudo ao questionarem a lógica e os motivos da abordagem. e isso não é de agora; é a forma com que a polícia age, historicamente, no país. o que me deixa particularmente indignado, neste caso específico (além da obviedade de que, por ter sido comigo, me toca mais de perto), é a forma com que se tem usado o tópico da “manifestação” (uma vez mais essa palavra) como indicador de possíveis suspeitas e justificativa para abordagens pouco compreensíveis. acho sobretudo uma estratégia falida, pelo clima que tem gerado, mas deixa muita gente ainda mais receosa. não acho exagerado enxergar nessas abordagens, que assumem seu real sentido quando pensadas em conjunto, uma tentativa de constranger ao silêncio. e por não se tratar de casos isolados, não pude deixar de - talvez pra compensar o silêncio e a inércia da última noite - me manifestar.

terça-feira, 9 de abril de 2013

essa ideia não me representa                         .

Hanna Arendt, em “origens do totalitarismo”, apresenta uma interessante e particular perspectiva sobre ideologia. Confesso que li o texto há mais de dois anos, para uma disciplina bastante distante de meus interesses acadêmicos imediatos, e apesar de não ter relido, volta e meia me valho do que dele me recordo a despeito de minhas confusões de memória. Para Arendt, a ideologia – a lógica de uma ideia – está relacionada a um movimento de dedução; processo interno marcado pela pretensão de explicação total a partir de uma “ideia” dada. Assim, operam-se a libertação do pensamento em relação à experiência e à realidade e a busca por encontrar significados e intenções secretos em todos os acontecimentos. Dessa manipulação da realidade de acordo com afirmações ideológicas, resulta uma mentalidade programada para compreender e experimentar a realidade a partir de um sentido [oculto] predeterminado.

Como disse, a disciplina referida não tinha relação direta com meus estudos. E se as ideias de Hanna Arendt me voltam à cabeça é porque imagino aproximações possíveis entre aspectos específicos de suas reflexões sobre o papel da ideologia na configuração dos regimes totalitários e algumas características da política na atualidade democrática; paralelos que os comentários em torno do deputado M. Feliciano me fizeram retomar. Obviamente, não me refiro a uma aproximação simplista intolerância-totalitarismo. O que me tem chamado a atenção, ultimamente, é menos o deputado e suas colocações, e mais os malabarismos daqueles que, de uma forma ou de outra, tentam, se não defendê-lo, minimizar as críticas a ele feitas.

Um deputado federal que tem veiculados (no passado e no presente) muitos discursos de intolerância e discriminação – racial, sexual, religiosa – passa a ocupar a presidência de uma comissão voltada para a consolidação dos direitos humanos. A partir de então, emerge uma série de manifestações de repúdio; manifestações que, não inesperadamente – dadas a tópica em pauta e a atual configuração das redes sociais –, assumem dimensões incontroladas. A despeito de toda insatisfação e das muitas demonstrações contrárias, o deputado é mantido na função que lhe foi atribuída – e mantém-se, também, na produção de discursos ofensivos a grupos que historicamente militam por ver reconhecidos direitos que entendem possuir.

Paralelamente, uma série de vozes se levanta contra as críticas ao deputado; coloca-se em causa desde a existência e a natureza das manifestações (questionando-se “os reais interesses”; “o real engajamento”; “a real estratégia”... como se houvesse uma intencionalidade oculta unificando-as) até a luta por direitos para os grupos contra os quais ele vocifera. O que, ademais, combina-se com a tentativa de esvaziar o peso de violência do discurso – como se não se estivesse diante de uma ação concreta, mas apenas de uma “expressão de opinião”, entendida como parte de um direito supremo que, mais que a integridade e a dignidade de fato em jogo, deveria ser protegido. 

Há muito que se aponta o quanto falar é fazer, e não é preciso ir longe nos referenciais para se dar conta de que a ação política de um deputado não se separa de suas palavras; ele age por elas – nesse caso específico, a “opinião” expressa pelo presidente da comissão de direitos humanos influencia, é claro, as políticas sobre os direitos humanos no país. No entanto, em uma espécie de malabarismo, os contra-argumentadores (pró-Feliciano/antianti-Feliciano), que, via de regra, a despeito de não serem maioria, enquadram-se em um grupo “identitário” majoritário, entendem-se discriminados; violentados em seus direitos enquanto grupo [hegemônico], como se a eventual afirmação dos direitos de grupos específicos diminuísse os que já lhes são garantidos e que não estão em causa. 

Quando se pensa que o que está em pauta não são propostas específicas de afirmação de direitos de grupos minoritários, e sim manifestações de repúdio a um deputado que se manifestou primeiro contra esses grupos (e representa projetos políticos que, fazendo sua opinião ter efeitos mais abrangentes, colocam-no em posição contrária à defesa dos direitos humanos), aumenta o descabimento. Reclama-se da “radicalização” das manifestações, mas esquece-se que elas são uma resposta ao discurso “de opinião” radicalmente preconceituoso e intolerante do deputado. Entender essa conjunção de reações como parte de um repertório programático [oculto] contrário a grupos que estão longe de ter seus direitos postos em causa (essa, aliás, nunca foi uma bandeira real) não parece lógico. Repetir, sem cessar, que faz parte dos direitos de um grupo “identitário” majoritário a afirmação de sua identidade (o que envolve, em última análise, a não-aceitação do outro-diferente e sua qualificação como desviante e inferior), sem entender que essa identidade já é constante, simbólica e violentamente afirmada no dia-a-dia - e que essa vontade de afirmação não pode ser posta no mesmo plano que a necessidade de afirmação de um grupo minoritário, em sua luta pela permanência enquanto grupo e pelos direitos que entende serem-lhes devidos -, parece igualmente insensato.

A “ideia” para Arendt seria como uma chave de leitura (ou um espelho deformante?) do mundo e da história, condicionando e integrando passado, presente e futuro – e, desse modo, justificando ações políticas específicas. No meu entender, a perspectiva da ideologia arendtiana, a manipulação da realidade e da experiência a partir da “ideia”, pode ser uma espécie de ferramenta para, por comparações, tentar compreender como, nesse caso, pode-se fazer uma leitura que inverte papéis aparentemente tão bem demarcados. Penso que as certezas da “ideia” podem, sim, acabar induzindo uma compreensão da realidade a partir de um sentido oculto que confere significado a tudo (o que já ocorreu, o que está ocorrendo e o que vai ocorrer). A “ideia” aqui trazida à baila está associada a um extremismo do pensamento conservador, que se afirma pela demarcação de fronteiras; pela negação de um outro-diferente, entendido como inimigo por ser potencialmente desestabilizador (por ser portador de uma decadência anunciada) - e, como tal, fundador de um medo obsidional, que torna possível que elementos de um grupo “identitário” majoritário se sintam perseguidos por suas ideias que beiram a ortodoxia/hegemonia. De fato, uma quase completa inversão de papéis.

Assim se constroem os mitos complôs. Raoul Girardet - outro autor de que me recordo - indica que o problema nas relações entre mito e realidade está na passagem da veracidade do fato a sua interpretação mítica, que se marca por um movimento de transgressão do acontecimento histórico, possibilitando uma leitura imaginária. O complô, como dispositivo retórico, permite a configuração de um inimigo global e sua diferenciação em relação ao corpo social. Em reflexões acerca da Época Moderna – período sobre o qual me debruço –, não é difícil notar como, com base no pensamento ortodoxo e hegemônico cristão, centros de poder político-religioso procederam em tais balizas para construir a argumentação legitimadora de uma série de medidas políticas tomadas em detrimento de grupos específicos - então entendidos como perigosos; amálgama da decadência e da perversão que, na leitura teleológica construída a partir da “ideia” em pauta, era preciso combater. Ver no que há de extremismo no pensamento conservador no Brasil de hoje paralelos com aspectos pontuais desse passado não me parece em tudo incoerente. Trata-se, é claro, de contextos e dimensões bastante diferentes; matizes a que se deve estar atento e que a aproximação reflexiva permite elucidar. Esse é, em suma, um exercício não para simples e simploriamente vociferar acusações vãs e preconceituosas (pois dessas, já há bastante), e sim para incentivar a reflexão e compreender como se pode conformar contra-argumentações aparentemente tão descabidas. Afinal, ser ou não representado por um discurso excludente, defendê-lo ou criticá-lo, tolerá-lo ou não são atitudes políticas carregadas de sentidos que não deveriam estar ocultos.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

nem bucéfalo, nem rocinante                              .

Não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas me lembro bem do quanto eu queria um cavalo. Como morávamos em um sítio e tínhamos cabras, bodes, vaca, bezerro, galinhas, gansos, gato e cachorros, querer um cavalo não me parecia pedir muito. Por isso, pedi [muito] a meu pai por um – podia até ser um pangaré; não me importava. E ele sequer precisaria se preocupar, pois eu já tinha tudo programado. Sabia em qual das antigas baias o cavalo ficaria. Sabia onde havia uma sela velha. E, depois de uma rápida consulta a meu avô, sabia até onde conseguir o freio e o arreio de que precisaria para minhas cavalgadas. Só me faltava a concordância paterna.

A concordância e o patrocínio, claro. Eu havia ingenuamente feito as contas; não tinha como conseguir um cavalo com minhas economias – nem um daqueles de madeira. Por isso, estava disposto a abrir mão de minha mesada por tempo indeterminado. Com a parte de não me dar mesadas meu pai concordou rapidamente. Mas o cavalo nunca veio. O máximo que consegui, em todos esses anos de insistência, foi um pônei – ou quase isso.

A história é confusa, e tentarei simplificar. Meu primo tinha uma pônei – como se não bastasse ser pônei, a coitada tinha nome de ajudante da Xuxa: Paquitita. Pois bem, quando Paquitita ficou prenhe, deliberou-se, em um acordo familiar, que o rebento ficaria sob nossa guarda. Não era bem um cavalo, mas eu confesso ter gostado da ideia. Algum tempo antes de dar à luz, ela foi levada para nossa casa – com uma barriga tão grande, que suas pernas curtas pareciam não conseguir sustentar. Ela ficaria conosco durante alguns meses, até que seu filhote nascesse, fosse amamentado e pudesse ficar sozinho.

Eu estava esperando ansiosamente um potro até parecido com a Paquitita, mas infinitamente mais interessante. Diferente dela, além disso, ele com certeza receberia um nome digno. Afinal, quem desajustadamente chamava de Cláudio (imperador romano) e Don Juan (conquistador de Sevilha) seus bodes, podia muito bem ter um pônei de nome Alexandre (grande rei da Macedônia), ou Bucéfalo (seu cavalo de guerra). Confesso que, ansioso com a perspectiva da cavalgada, me esqueci das limitações óbvias, e sequer me dei o trabalho de pensar em algum nome. Também confesso que não sabia, à altura, o que essas referências todas tinham de mítico. Só me importavam as sonhadas aventuras – nesse sentido, seria ajustado o nome Rocinante (cavalo velho e fraco, que para um sonhador Don Quixote valia como grande montaria – seu companheiro Sancho Panza, realista, curiosamente se apresentava montado em um burrinho anônimo).

Todos os dias – de manhã, e à tarde, e à noite – eu ia ao pasto e verificava o tamanho da barriga da pônei. Todos os dias, e nada – o tempo parecia não passar. Até que, sem que alguém se desse conta, nasceu. Nasceu um filhote diferente: orelhas longas e pontudas. Pelo cinza e arrepiado. Pernas curtas e magras. Rabo espichado. A [filha de uma (miniatura de) égua da] Paquitita, sem que sequer desconfiássemos, havia cruzado com um jumento e por isso deu à luz... um jegue. Surpresa! - pode-se imaginar a comoção.

“Não serve para montar? Tem certeza? E se a gente tentar? Mas ele é tão fofinho... Ele pode ficar só por ficar, então? Um burrinho de estimação – vai ver ele carrega alguma coisa... Eu cuido todos os dias; prometo. Posso ficar com ele? Ah, pai, diz que sim...” 

De nada valeram minhas súplicas; ele disse que não. Passados alguns dias – em que de longe se ouviam os berros estridentes do filhote: ih-oõhh... ih-oõhh... –, meu pai abriu mão de nossa parte do acordo; foram-se embora a pônei e seu rebento, que (como parece ser a sina desses pobres híbridos hípicos: o anônimo burrinho que carregou Jesus; o anônimo burrinho que carregou Santo Inácio; o anônimo burrinho que carregava Sancho Panza), não recebeu nome algum.

Sem Bucéfalo, sem Rocinante e sem burrinho. No final, só me restou a história. Tive que me resignar.

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

carnavalescos                                                  .

Éramos dois piratas, uma diaba, um gari e uma Frida Kahlo. Não reparamos nos termômetros, mas – licença poética – o suor, a beleza e o caos, indisfarçáveis, permitiam supor não menos que quarenta graus cariocas. Da Praça XV ao Largo do Machado, entre idas e vindas, ouviam-se, às esquinas, hits novos e velhos – “ah-la-la-ôh, o-o-ôh, o-o-ôh, mas que calor, o-o-ôh, o-o-ôh”; “girando, girando, girando prum lado; girando, girando, girando pro outro; ah... leleke, leke, leke, leke, leke...” –, tudo muito nos conformes: carnaval.

Um pouco mais cedo, do outro lado da Baía – a despeito do calor que também não perdoava as terras de Araribóia –, o cenário era todo outro: ruas desertas, silêncio, constrangimento. O clima carnavalesco só se instaurou quando, ultrapassadas as roletas das barcas, sob o olhar do índio emburrado, aglomeraram-se fantasiados e ambulantes – pierrôs, colombinas, carminhas; camarão, buzinas, chapéus-panamá – entoando, a cada dois minutos: “se essa canoa não virar, oh-lê, oh-lê, oh-lá, ê-eu chego la-á”. Pois chegamos: carnaval.

Paço Imperial, Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, Palácio Tiradentes, Praça Mahatma Gandhi, Passeio Público, Arcos da Lapa, Catedral Metropolitana de São Sebastião, Escadaria de Selaron, Igreja de Nossa Senhora da Lapa, Praça Paris, Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Palácio do Catete, Igreja de Nossa Senhora da Glória... Tudo há muito conhecido, tudo com profanos ares de novidade. No ritmo das marchinhas, zombeteiros, andamos, pulamos, [há quem, talvez contagiado pela animação, diga até que] dançamos. Não admira o cansaço: carnaval.

E quando, por fraqueza, foi preciso inventar uma pausa, a festa quase desandou. Em busca de sombra, mesas e cadeiras, fomos parar em uma esquina que, a julgar pelo aspecto decadente, parecia um boteco tradicional. Assim que nos sentamos, contudo, percebemos o engano: a decadência não era do estabelecimento, mas do proprietário. Enquanto nós e a mesa ao lado nos esforçávamos por, fantasias postas, fazer valer a simpatia carnavalesca, relevando, com malabarismos sorridentes, grosserias óbvias, um Sr. Português Mal Encarado – barriga transbordando da camisa polo desbotada, sotaque deliberadamente rude, olhos de turva indiferença, bigodes em riste – impôs sua inadequação. Fizemos nosso pedido e, no mesmo instante, presenciamos nossos colegas foliões serem tosca e injustificadamente expulsos: mesa recolhida, empurrões, cadeiras levantadas... Enquanto os potenciais consumidores, insistindo em não perder a compostura, tentavam fazer ver a arbitrária desrazão do Sr. Inadequado, decidimos tacitamente: terminada a cerveja já paga, levantaríamos, em protesto – que tipo de carnaval era aquele, afinal?!

Estando sentados havia apenas quinze minutos, o Sr. Mal Encarado decidiu adiantar improcedências, avançando em nossa direção. Agarrando nossa garrafa, gritou insistentemente, com os escuros dentes semicerrados: “Acabou! Acabou! Não vão pedir outra? Pois! Levantem-se e partam!”. Mal podíamos acreditar. Chocados já estávamos; ficamos aturdidos. Queríamos sair dali, claro, mas não havia como aceitar a expulsão, ainda mais depois de tudo que havíamos presenciado. Enquanto insistíamos em nosso direito de permanecer onde estávamos, nosso folião-gari tirou a garrafa de sua mão: “Nós diremos quando acabar; os copos ainda estão cheios. Não vamos levantar agora”. Para nosso espanto, o espetáculo se repetiu – de novo; e de novo: garrafa roubada, e depois reconquistada. A cada investida, acentuavam-se os impropérios. Na calçada, ajuntavam-se expectadores - carnaval?

Nossa foliã-diaba – que de diabólica tinha apenas a fantasia –, cansada, pegou a garrafa disputada e dirigiu-se, com voz esforçadamente calma, ao Sr. Inadequado: “Olha só, o senhor não pode fazer isso com as pessoas”. Como ele insistia em não ouvir, rangendo os dentes e gritando: “Não podem ficar; não podem ficar; já não há mais! Deem-me a garrafa! Não podem ficar!”, ela encheu seu copo com o que restava na malfadada garrafa e, mirando seu rosto, despejou-lhe, em um golpe, tudo que havia - e também o que não havia -, atingindo a Avantajada Barriga. Enquanto ele gritava: “Ãh! Ôh! Ãh! Mas que abusada! Ôh!”, percebemos que não havia por que insistir em nosso protesto; nossas tentativas de manter a calma e a razão, a despeito dos desvarios que nos afetavam, haviam encontrado um fim inesperado. Ignorando os lamúrios desajustados, deixamos a mesa e o proprietário decadentes. Só então nos demos conta dos empáticos expectadores que, como nós, haviam despejado, com a cerveja, toda sua indignação na Barriga Mal Encarada. Acalmados os ânimos, andamos mais alguns quarteirões pelo Largo do Machado e nos sentamos novamente - encontrando, por acaso, os foliões que haviam sido expulsos antes de nós. Do absurdo e da surpresa (que, em outras circunstâncias - fôssemos não tão calmos -, poderiam ter resultado em algo mais que um copo derramado), fez-se graça. Rimos todos, aliviados, do que prontamente perdia qualquer gravidade momentânea, transfigurando-se em história engraçada - "apesar de fazer muita força, o vovô foi passado pra trás". Novamente nos dávamos conta do calor, da alegria e do cenário - maravilha. Éramos, afinal, dois piratas, uma diaba, um gari e uma Frida Kahlo: carnaval - festejaríamos.

...
O Bobalhão
Pixinguinha

Os brasileiros já nasceram na folia
Dão penas, bolas e farreiam noite e dia
No carnaval vendem tudo quanto têm
Para gozarem esta festa sem igual

Sai, sai, sai, bobalhão
Sai, sai, sai, charlatão
O carnaval jamais se acabará
Com esta boba e tola opinião

Tu procuraste foi sarna pra te coçar
E muitas pragas sem que possas te livrar
Se te apanham, o povo do carnaval,
Fazem de ti um enterro infernal

[para ouvir a música, clique aqui]

sábado, 26 de janeiro de 2013

palavras cruzadas                                      .

Há algo a meu respeito que muito poucos fingiriam desconhecer: não sou exatamente simpático. Entre os alegados motivos por que tento desculpar uma ou outra acusada antipatia, destaca-se, logo depois da acentuada timidez, uma quase completa inaptidão para manter conversas ocasionais com desconhecidos. Não que eu ignore o repertório de tópicos adequados; sou capaz de tecer comentários vagos sobre o clima, sobre o trânsito, sobre os efeitos do clima sobre o trânsito (ou vice-versa)… O problema é que dificilmente a conversa se encerra (adequadamente) por aí; posso disfarçar minhas críticas e chateações por meio das facilmente disponíveis colocações do senso comum, mas à medida que sou instado a concordar com proposições menos aceitáveis – sejam elas em relação à política, à moral, aos bons constumes… – ou a me pronunciar sobre questões pessoais, fica difícil manter as aparências.

Antipático? Com certeza, mas nem por isso isento de tais constrangimentos dialógicos. Por menos disponível/interessado que aparente estar para “jogar conversa fora”, um eventual e insistente desconhecido pode acabar inventando um meio de desenvolver (ainda que em troca de relutantes monossílabos) uma “conversa”. Pois justamente em um tal contexto – estando eu em um ponto de ônibus, sob chuva, esperando o quase inexistente ilha da conceição x icaraí – um Sr. Barrigudo, vestindo camisa social apertada, bermuda curta, meias e sandálias, se dirigiu a mim:
- qual seu nome, meu filho?

Droga, cadê meus fones de ouvido, numa hora dessas? E o ônibus, cadê? Vou fingir que não ouvi. Vai que aparece outra pessoa no ponto. Vai que ele desiste. Vai que…

- seu nome, qual é?

É, não vai ter escapatória. Que nome posso me dar? Tenho que pensar rápido... Já sei: Lucas.

- ah, lucas… lucas! e você tem quantos anos, lucas, meu filho? tudo isso? parece mais novo… vinte e um anos. eu tinha a sua idade, quando vim para niterói, lucas. eh… eu tinha mesmo a sua idade. e niterói era como outra cidade. tudo diferente, aqui em niterói. não tinha a ponte, eh... e não tinha tanto carro.

Ahm, trânsito; boa! Posso falar alguma coisa sobre engarrafamento, é bom para me desviar de questões pessoais.

- aham… eh... acho que está ruim, sim. mas eu não dirijo e, além disso, tenho bastante tempo: sou aposentado; não faz muita diferença, o trânsito. mas niterói era bem diferente, naqueles anos… era mais seguro, naquela época. eu era jovem. da sua idade. vinte e um anos… os jovens tinham mais liberdade. andavam mais tranquilos. isso porque era seguro. sabe, lucas, me identifiquei com você. meu ônibus está vindo ali. é o 61. você vai nesse também? não? ah, eu, eh… sabe, com a idade que tenho, estou já aposentado, né? isso… não tenho horário. vou deixar esse passar; subo no próximo. a gente conversa mais.

Ai, ai... Putz! É chuva, ônibus e tempo que não passam – e eu aqui… Furada!

- eh… lucas, você… eh… você o que é que faz, meu filho? estuda, eh? estuda… e onde é que você estuda, meu filho? na universidade. faz direito, eh? não? e faz o quê, então? ah, história… conheço muitas histórias. vim para niterói há muitos anos. era muito diferente... muitas histórias!

Será que se eu tivesse dito que fazia direito o assunto tomaria outro rumo? Bem, agora já era. Mais histórias...

- outro 61 ali. e o seu ônibus? seu ônibus não vem, né? demora, né…

Nem me fale... Nem me fale!

- você não tem hora, eh? eu, quando tinha vinte e um anos, andava a cidade toda a pé. era tudo diferente: mais tranquilo. mais seguro. bem, vamos continuar a conversa, porque já deixei mais esse ônibus passar; pego o próximo... pego um próximo.

E se eu pegar um ônibus até o terminal e de lá pegar um outro até a UFF? Já estou atrasado e molhado. Também posso voltar para casa…

- lucas, eu me identifiquei com você. já te disse, né? eh, disse… me identifiquei. e por isso, vou conversar umas coisas com você. coisas importantes. sabe técnico de futebol? então, eles, os técnicos, ensinam os jogadores de futebol a jogar futebol, não é? estratégia, essas coisas… coisas de futebol. então, me considere um técnico para a vida. vou te dar uns conselhos para a vida. tudo bem? não precisa? precisa... precisa sim, porque moro aqui em niterói desde os vinte e um anos, a sua idade, eh…

Como assim? Agora já era. Tenho um bom conselho para mim mesmo; um conselho para (toda) a vida: ande sempre com fones de ouvido!

- vou te dar três conselhos; conselhos que ninguém me deu, quando eu tinha a sua idade. coisas que a vida me ensinou; me ensinou depois dos vinte e um anos. e agora vou poder te ensinar; conselhos para a vida.

Um ônibus vindo. Dois ônibus. Mais um 61, claro - sempre! E atrás… Meu ônibus! Finalmente.

- mas já é esse o seu ônibus? o meu vem logo ali também, o 61. mas e os três conselhos? bem, preste atenção que dá tempo, tudo bem? preste atenção: 1. não se apaixone por uma prostituta; 2. não jogue por dinheiro; 3. faça palavras cruzadas regularmente. niterói era muito diferente, quanto eu tinha vinte e um anos. já disse, né? disse; muito diferente. mas acho que esses conselhos podem ser bastante úteis para um jovem como você; uteis ainda hoje. pronto. o seu ônibus. adeus, lucas. e não se esqueça: faça palavras cruzadas regularmente – é para a memória!

Não tenho dúvidas acerca de uma coisa: Niterói realmente mudou muito. Quanto ao Sr. Barrigudo, é preciso reconhecer que, a despeito de estar deslocado, com suas meias e sandálias, debaixo de chuva, ele se esforçou; forjou ocasião para cruzarmos palavras - em flagrante desencontro. E eu, apesar de inegavelmente antipático, não me esqueci - memória!

sábado, 24 de novembro de 2012

lugar [de consciência e] de memória                   .

Dia 21 de novembro de 2012. Como suposto “contraponto” ao Dia da Consciência Negra, celebrado no Brasil, internautas [também supostamente] “antenados” resgataram um trecho de uma velha entrevista em que o ator Morgan Freeman, ao ser questionado sobre sua opinião acerca do Black History Month, nos EUA, afirma se tratar de uma iniciativa “ridícula”. Sua argumentação: se não há um “mês da história dos brancos”, ou um “mês da história dos judeus”, não deveria haver um “mês da história dos negros”, afinal, a “história dos negros é a história dos EUA”. Perguntado, então, sobre como ele pensa que deveria ser combatido o racismo, já que não por esse tipo específico de ação de afirmação da história e da cultura "dos negros", ele afirma: “parando de falar a respeito; eu vou parar de chamá-lo de ‘homem branco’, e você para de me chamar de ‘homem negro’”. http://www.youtube.com/watch?v=tNEoIo3XMws

O mesmo Freeman, em outra entrevista, afirmou não querer, para si, a importância ou a responsabilidade de seu papel como "um negro importante no mundo". Vale a pena retomar alguns trechos:
- O senhor se tornou um dos primeiros atores negros de sucesso em Hollywood. Isso lhe dá orgulho?
- Não tenho muita certeza de que queira sentir orgulho disso. Ser uma figura de importância acarreta responsabilidades enormes – que talvez eu não deseje, ou para as quais não seja talhado. Ser um ator importante, isso eu aceito. [...]
- Há uma parcela de importância, entretanto, que seria difícil ao senhor refutar: a de ter provado que é possível ter sucesso e prestígio em uma carreira em que as honras durante muito tempo estiveram fora do alcance de um negro.
- Compreendo o apelo desse conceito, o de ser um negro importante no mundo. Mas, de novo, prefiro que não me cubram nem com essa importância nem com essa responsabilidade. http://veja.abril.com.br/200110/nao-sou-um-icone-negro-p-17.shtml
A fala dele, no vídeo referido (que volta e meia vem à tona, quando alguém repete um velho argumento, como se de algo novo se tratasse), aponta justamente no mesmo sentido; conduz à mesma ideia de que melhor seria não falar no assunto; de que, talvez assim, pela simples recusa de seu reconhecimento, ver-se-ia diminuído o problema. Mais que refutar a lógica dessa argumentação que não é nada estranha ao país da proclamada [ilusão da] democracia racial (G. Freyre), cabe lembrar que o Morgan Freeman, cujo argumento é continuamente recuperado como contraponto às ações afirmativas justamente por se tratar de um caso de um negro de sucesso que a elas se opõe, só pôde/pode reclamar para si a imagem de um "ator importante", e não a de um "[ator] negro importante", à luz de uma série de movimentos e de políticas históricas de afirmação que lhe permitiram chegar a essa condição.

Essas políticas, a segregação que as fez necessárias e os embates que elas demandaram precisam, sim, da efeméride, porque correm o constante risco de ser esquecidos - como se o histórico embate operasse no sentido de reforçar o preconceito que ajudou a diminuir. Não há um mês/dia da consciência branca ou da judaica, mas os "lugares de memória" (P. Nora) desses grupos – e o discurso e as relações que os legitimam (e renovam) – não estão em questão. A comparação proposta, ao supostamente reclamar igualdade, revela desníveis que não é possível esconder. Só não vê quem faz questão de ter os olhos sempre fechados para a desigualdade. Não por acaso, o Freeman e seu vídeo têm grande acolhida por aqui. Contexto.

Não causa espanto que um indivíduo pertencente a um grupo que é alvo de matizes diferenciados de discriminação (um grupo de outsiders, diriam N. Elias e J. L. Scotson) queira se afirmar pela negação da realidade do grupo como tal, ou por seu afastamento (sobretudo identitário) em relação a esse grupo (aproximando-se, por oposição estratégica, ao grupo dos estabelecidos). O que causa espanto é que não se veja, nesse exercício de negação/afastamento/recusa, uma evidente (e violenta) marca simbólica da discriminação que se busca negar.

Não acredito, definitivamente, que todo texto relacionado às ações afirmativas – e particularmente às cotas - seja interessante. Muito pelo contrário; acredito que, na maior parte dos casos, o que se escreve não passa de enrolação, construída – às vezes até habilmente – como fuga/desvio do que deveria estar em pauta: a questão do preconceito fundado em questões raciais (e se emprego o conceito, não o faço ingenuamente). Entendo ser fundamental abordar as cotas como o que elas de fato são: uma política afirmativa; um instrumento jurídico voltado à resolução de uma situação específica de desequilíbrio crônico – nada mais, nada menos (afinal, trata-se, em si, de um campo carregado de significações e de lutas; mas nunca se afirmou serem, as cotas, panaceia - quem cobra dessas medidas de ação afirmativa específicas, mas carregadas de sentido, uma solução estrutural para o problema da educação ou não compreende os pressupostos em debate, ou quer fugir à discussão aberta das questões em pauta).

Durante muito tempo, afirmei-me abertamente contrário a essa política. No entanto – resultado de algumas tantas leituras e discussões –, vi-me paulatinamente mudar de posição. Não penso, contudo, que se trate de uma questão simples ou consensual – de modo algum; acredito, na verdade, que seja assunto bem mais complexo do que a grande maioria dos textos tentam fazer pensar, quem sabe em um esforço de, invertendo o extremo, mas não a lógica do recurso retórico ao argumento absurdo, esvaziar o que deveria ser, por princípio; pela relevância dos tópicos trazidos à baila, um debate enriquecedor.

Também não me considero um articulador particularmente bem capacitado – longe disso –, mas como escrevo a partir de/para um espaço de opinião particular, sinto-me apto a reproduzir umas tantas ponderações, escritas como resposta – e justificam-se, assim, a organização confusa do texto e o pouco desenvolvimento de pontos importantes – a um interlocutor amigo, a quem peço licença [nossa conversa se desenvolveu a partir de minha indicação deste texto: http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/05/05/a-midia-as-cotas-e-o-sempre-bom-e-necessario-exercicio-da-duvida-por-ana-maria-goncalves/ ].

(1) Acredito ser preciso reforçar a ideia de que não está em questão uma "luta do negro" como ente abstrato; o que se tenta alterar é a forma com que os negros brasileiros são vistos na sociedade brasileira hoje – as oportunidades que têm, o papel que se entende estar a eles reservado, as perspectivas de que dispõem... Busca-se, concretamente, lutar contra o preconceito de cor (a despeito de a questão racial estar já desmerecida no campo biológico, ela se manifesta e se atualiza concretamente no quotidiano da sociedade brasileira justamente com base nesse "indicador" de diferenças/demarcações, daí ser necessário, para tentar uma solução à questão, remeter-se aos termos em que ela está colocada; essa "confusão" entre raça, cor, identidade e lugar social). No caso da reserva de vagas, opera-se, pela inserção de indivíduos negros em espaços dos quais estão, enquanto grupo, excluídos (uma questão de proporção que alguns casos particulares - exceção - não fazem mais que comprovar) - sejam os cursos universitários ou as diversas realidades profissionais/sociais que eles possibilitam -, contra manifestações recorrentes de preconceito, alterando justamente as oportunidades que têm, o papel que se entende estar a eles reservado, as perspectivas de que dispõem...

Estudando-se a forma com que se deu a escravidão na América portuguesa, é inevitável constatar-se a já ocorrência da escravidão em território africano. Mas o que está em jogo – insisto – não é pensar a origem última de uma forma de exploração, e sim a forma com que as consequências da realidade da escravidão colonial perduram na sociedade contemporânea. Devido à associação entre escravidão e cor da pele, passou a haver uma relação forte entre o ser negro e o ser escravo. E a despeito de uma série de exemplos de negros nos períodos colonial/imperial que conseguiram (ao contrário do que muitos pensam) desfrutar de relativa ascensão e mobilidade, tal relação se manteve, mesmo após a abolição (negro = descendente de escravo).

Tendo-se em vista a forma com que foram tratadas as questões da abolição e da cidadania e, dentre outros fatores, as diversas políticas de silêncio sobre a cor e de um discurso de exaltação da mestiçagem que pouco escondia um ideal de embranquecimento (H. Mattos), pode-se afirmar que, em vez de se buscar uma integração, optou-se por negar a existência de um problema – negando-se, também, soluções possíveis. Permaneceram, em muitos setores, a mentalidade de âmago escravocrata, as exclusões e os preconceitos. É contra isso, especificamente, que se voltam as cotas. Não está em questão, definitivamente, uma luta brancos x negros.

O fato de haver "movimentos negros" (plural) relaciona-se à questão da construção de uma identidade entre indivíduos excluídos – que passa pela cor, pelos motivos já apontados. E o fato de tais grupos, muitas vezes situados em contextos característicos, desenvolverem diálogos (com influências em suas políticas) me parece natural – e não indicativo de uma luta do negro, em abstrato (ainda que muitas vezes, em discursos/demandas políticos, busque-se uma certa "africanidade" utópica, como essência última de lampejos e impulsos). Outro ponto [...] é que, em meu ver, o preconceito racial não se limita aos indivíduos identificados como brancos; ele perpassa toda a sociedade. O que complexifica – e muito – o debate, mas não invalida a abordagem da problemática. É que o excluído/explorado não raro acaba por reproduzir o discurso que o identifica como tal – e age, muitas vezes, como "algoz".

[...]
(3) A cidadania é, sim, para todos - isso não está em questão. Mas insistir no aspecto universal, apenas, é passar por cima de desequilíbrios sobre os quais o enfoque "genérico" muitas vezes iguala-se a um silêncio. Discordo de que a luta por direitos específicos para minorias (a que são negados) represente o enfraquecimento de uma cidadania universal. Pelo contrário; entendo que esse seja um passo importante em sua direção - a ampliação do acesso a direitos como um avanço rumo a sua universalização.

Quando os franceses, no calor da Revolução, pensaram sua carta de cidadania, o "universal", ali, a despeito do discurso, era em muito excludente. Quando da Carta brasileira do Império, negou-se a cidadania aos escravos e, mesmo entre os então considerados brasileiros e cidadãos, havia os que não podiam desfrutar de uma cidadania plena. Há que se pensar, por exemplo, na inserção das mulheres nesse processo – que só se deu/vem se dando com políticas específicas; que se pensar, também, nos dispositivos de proteção direcionados especificamente a indivíduos mais vulneráveis... São mecanismos voltados à consolidação de direitos (que – devido a desequilíbrios/disfunções – estão ausentes). Sou um convicto favorável à proteção a minorias (seja uma minoria numérica, ideológica, religiosa... sejam seus representantes índios, negros, homossexuais...), por acreditar que se opõe às minorias não a universalização inclusiva, e sim a negação, fruto de uma pretensiosa hegemonização/subordinação tendencial.

(4) Não acredito – e entendo as implicâncias e vulnerabilidades desse posicionamento – que as questões social e racial (ou sexual/cultural...) sejam solucionáveis de uma mesma forma. Acredito, sim, na necessidade de se buscar uma alternativa estutural/sistêmica; que apenas uma mudança da estrutura trará uma solução para a questão das desigualdades sociais, que são resultado, sim, da exploração capitalista, mas sinceramente não entendo que aí resida a solução de outros desequilíbrios de que padece a sociedade – ainda mais quando se busca justamente negar o colocar-se em questão de tais problemáticas.

Também não vejo que uma luta pelas minorias represente um retrocesso na busca de uma alternativa. Muitos – sei que não todos, mas, proporcionalmente, acredito ser um indício relevante – dos engajados na luta de minorias são bastante críticos e envolvidos em projetos de mudança política mais amplos. Enfim; não sei... Quando penso em alguns movimentos revolucionários que chegaram ao poder, vejo que suas atitudes com as minorias tenderam ao oposto do equilíbrio. Isso, confesso, me é incômodo.

[...]
(5) Acho que entendi – ao menos em parte – as objeções ao que tange às opressões e lutas particularizadas. Posso dizer que concordo que, mesmo nesses casos, é importante manter no horizonte a cidadania universalizante (uma abstração, mas não só isso, definitivamente). Acredito, sim – não custa insistir –, na necessidade de tais movimentos característicos, voltados a questões pontuais, manterem relação entre si e com um panorama mais amplo (estrutural) de mudanças.

A colocação quanto à questão da instauração de regimes revolucionários e a opressão de minorias foi, sim, descuidada, e foi também, há que se dizer, despretensiosa – apesar do que possa ter aparentado. Mas confesso que, a despeito de não poder aprofundar a argumentação – por de fato desconhecer os referenciais teóricos –, desconfio ainda um pouco de que, a não ser que se tenham em mente, continuamente, as especificidades do desequilíbrio contra o qual se deve lutar (ou seja, que não se percam de vista opressões particularizadas/movimentos diferenciados de exclusão), não se alcançariam as devidas soluções.